Do processo criativo à criatividade como processo

“No princípio criou o Senhor Deus os Céus e a Terra” (Gen. 1:1).

Toda vez que pensamos em criatividade, nos remetemos imediatamente à idéia de inspiração, como uma força, um “vento” mágico que nos ofertaria, graciosamente, o conjunto de habilidades necessário à produção de coisas incontestavelmente novas.


Achamos, no final das contas, que a inspiração é um sopro (ou um fôlego de vida). Queremos criar, “do jeito que Deus criou”. A variante Laica, nem por isso menos mística dessa impressão é, talvez, a noção de gênio. Formulada por Kant e levada às últimas conseqüências pelo romantismo.

Do espelhamento ordinário das duas perspectivas, o que nos resta é de um lado um Deus “todo-razão”, lançando luz sobre as trevas do universo infinito e ordenando-o (“E disse Deus haja Luz [...] e disse Deus haja separação entre água e terra seca / entre dia e noite / entre firmamento e terra,...") e do outro, o homem iluminado, movido por algo de metafísico ou por uma disposição de animus inexplicavelmente criativa.

Fui convidado a dar uma palestra sobre processo criativo na faculdade, revirei minhas coisas, referências, bibliografias e, de repente, peguei-me lendo o livro de Gênesis – não era para falar sobre processo criativo? Então vamos ler o livro da criação – curiosamente, descobri que, ao contrário do que a tradição religiosa nos fez crer, o relato da criação do mundo, assim me pareceu ao menos, não nos fala da criatividade como pura iluminação, mas como processo. Diria até que podemos extrair do referido relato uma metodologia de trabalho. É exatamente isso que vamos tentar adiante.

Faço aqui uma ressalva, antes que os especialistas me acusem de heresia. Não pretendo abordar o texto de um ponto de vista hermenêutico rigoroso. Não pretendo discuti-lo de um ponto de vista teológico e especializado. Nem pretendo também criar nenhum novo movimento do tipo “criatividade profética”. Tomarei a liberdade de considerá-lo [“apenas”] sob o ponto de vista literário e, sendo assim, reservo-me ao direito de inventar sentidos, experimentar idéias, partilhar impressões, ao contrário de buscar saber o que “efetivamente” o texto quer dizer sobre esse assunto ou sobre qualquer outra coisa. Dito isso, vamos deixar de desculpas e partir para o que interessa.

“No principio criou Deus os Céus e a Terra”. Acompanhando a narrativa bíblica, a primeira coisa que percebemos é que Deus poderia ter criado o mundo num estalo, que o mundo poderia ter sido criado inteiro, todo pronto de uma vez – alguém duvida disso? As águas poderiam ter surgido junto dos peixes, que surgiriam no mesmo “instante” em que se deu a separação entre dia e noite, que se daria no mesmo instante em que surgira o próprio homem, e assim por diante.

Entretanto, a criação divina se divide em sete etapas. Cada coisa foi criada no seu devido “tempo”. Primeiro a luz, depois a separação entre luz e trevas, então nomeia o dia e a noite (criando, por assim dizer, o tempo), a seguir, separa o firmamento da Terra, terra seca e oceanos e assim por diante.

Uma das coisas que nos paralisa talvez, diante do desafio criativo, é a expectativa de que a criação deva se dar por inteira. Como se Deus tivesse dito – haja tudo. O relato da criação divina nos mostra, porém, que há um tempo para cada etapa que precisa ser cumprida num processo criativo. Mostra que criar depende de regras, de ordem e de método. Estudo, pesquisa, experimentação, tentativa e erro, substituição de idéias, rascunhos, papel amassado. Todas essas coisas precisam ser incorporadas e adequadas à sua metodologia de trabalho.

Outra observação importante é que a bíblia nos diz que entre um ato e outro da criação “houve tarde e manhã”. Paciência e disciplina são duas virtudes importantes sem as quais não há nenhum processo criativo consistente. O tempo é um agente criativo importante. Precisamos aprender a deixar o trabalho “entardecer”. Há sempre um momento de “ocaso” do processo. Momento de voltar para casa, repensar a cena, as cores, as notas ou arranjos.

Momento de amadurecer a idéia de uma nova cena, de deixar o ator pensar em suas falas, se acostumar com as marcas, etc. Momento de desligar do trabalho e pensar em outras coisas, assistir a coisas que nada tenham com ele, ouvir outras músicas. Às vezes nos fechamos demais num projeto e não percebemos que as “soluções” para ele podem vir de fontes inimagináveis. Temos, entretanto, que nos abrir para essas fontes. E passado esse entardecer, nos forçar também a voltar, afinal, já é dia e precisamos continuar com o trabalho. Como saber, porém, o momento do entardecer e o momento de retornar?

“Viu Deus que isso era bom”. A bíblia nos diz que Deus olhou para sua criação. Autocrítica é fundamental nesse momento. A crítica externa também, pessoas da área, de ministérios vizinhos – ficamos sempre tão isolados, o momento de ensaio parece uma ótima oportunidade de troca com “o pessoal do ministério de teatro da igreja ao lado” – não parece? Ouvir e saber julgar, construir parâmetros também para julgamento, assistir a outros ministérios, ver o que se está produzindo fora da igreja, ler, estudar, capacitar o olhar. Aprender a ver, não como o “irmão da igreja”, tão condescendente, mas de forma especializada, ver com qualidade e não apenas com boa vontade. Mas só isso, pois,“viu Deus que era bom”.

Vou insistir nessa fala para dizer que Deus não somente viu, mas também viu que era bom. Tão importante quanto ter um olhar franco e sem melindres é saber ver o que há de positivo em cada ponto do processo. Isso mesmo. Creio que a chave seja aprender a encarar o processo como processo (algo pode ser mais simples que isso?). Uma cena trabalhada pela primeira vez terá uma série de problemas, se eu for julgá-la como um produto acabado, o juízo será terrível, mas, como processo, posso avaliar o que conseguimos avançar, compreender os “defeitos” da cena como parte do material que precisa ser elaborado e reconhecer as conquistas possíveis para aquela etapa do trabalho.

De outra forma, ficamos travados, não conseguimos avançar porque os contornos do desenho estão mal feitos, porque não encontramos as cores certas, ou porque a inflexão correta não aparece. Estar sempre disposto a tentar, tentar é a graça, precisamos aprender. São os esboços de cena que nos preparam para as cenas mais perfeitas. Os desvios fazem parte do processo e isso é sempre muito bom.

“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gen. 1:26)

“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida; e o homem passou a ser alma vivente.” (Gen. 2:7).

Ainda:

“Havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.” (Gen. 2:1)

Bom, quero terminar dizendo que nenhum processo criativo se faz sem trabalho ou sem descanso. Por um lado, Deus formou o homem, soprou em suas narinas. Criar o homem, numa expressão que causaria arrepio aos teólogos, deu trabalho a Deus. A criação não foi um ato gratuito e sem importância. Houve um investimento de Deus em nós e no mundo, por isso Ele pôde olhar para tudo e sentir, ao final, o prazer de uma realização. Mas não só isso, descansou Deus também no sétimo dia.

Há um momento do processo criativo no qual precisamos ter a coragem de descansar da criação. Dar o trabalho por encerrado. Trata-se de um ato de coragem, assumir os riscos de dizer – está acabado, foi isso o que eu produzi – e não poder de nada mais se desculpar. Algumas vezes é melhor ser mediano com pouco trabalho e poder sempre dizer – ensaiamos tão pouco – do que correr o risco de não sermos “geniais” ao final de todo nosso esforço. Talvez parte do que nos impeça de investir tudo o quanto podemos em um trabalho não seja realmente a preguiça, mas o medo de percebermos que, mesmo depois de tudo, não conseguimos fazer o suficiente.

Se me permitem terminar com um pequeno conselho, sempre que se der tudo, se terá dado o suficiente. Talvez não para aquela obra em particular, mas para o trabalho em geral. Nosso próprio ministério também é um processo, não se resume a um ou a outro episódio. O compromisso não é o de se fazer sempre coisas boas e memoráveis, mas o de crescer sempre com aquilo que se faz. Não fazer por acaso, não trabalhar de qualquer jeito, mas com método, ser sincero na autocrítica e corajoso ao encarar o processo. Compreendendo, por fim, que "o todo é maior que a soma das partes” e que tudo isso é sempre muito bom.

Que Deus os abençoe.

Guido Conrado é mestre em Filosofia da Arte e Estética pela PUC-Rio,
Coordenador do Bacharelado em Artes, com Habilitação em Figurino e Indumentária do Senai-Cetiqt,
professor de Estética e História da Arte na mesma Instituição
e autor da obra “Cinco Pães e Dois Peixes – Dons e Talentos No Ministério Teatral”.
Trabalha há mais de vinte anos com teatro em igrejas
e é membro da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

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