As novas perspectivas para o teatro cristão no Brasil

Se pensarmos em termos não profissionais, o teatro com viés religioso é, certamente, o mais produzido em todo o mundo.

Inúmeras são as igrejas e comunidades que costumam produzir encenações nas datas comemorativas de seu calendário litúrgico. Nas igrejas católicas, Paixão de Cristo, Coroação de Nossa Senhora e Auto de Natal constituem-se como os mais importantes eventos representados através do teatro. Nas igrejas protestante
s, o que se vê com bastante frequência são encenações de valorização da própria igreja com suas doutrinas e aspectos teológicos, ou “batalhas” do “bem” (representado por Deus, Jesus ou anjos) contra o “mal” (representado pela figura do diabo).
No período inicial das discussões contemporâneas sobre as possibilidades do teatro cristão (início da década de 90), via-se tal manifestação apenas como forma de evangelização, e não se questionava (ou se fazia muito pouco) sobre as potencialidades artísticas e culturais desta manifestação teatral. Nesta época (e ainda hoje em grupos iniciantes) a maior preocupação era: os grupos deveriam investir na técnica ou na unção? Como se fosse possível fazer teatro sem conhecimento mínimo sobre o tema ou evangelizar sem o direcionamento do Espírito. Mas, apesar, de hoje em dia, tal questão soar anacrônica e infundada, o embate entre correntes que defendiam apenas a unção, confiando apenas no divino suas apresentações teatrais, e aquelas que julgavam necessário conhecimento específico da matéria teatral para a realização de suas obras, foi intenso e acalorado.

Surgem, nesta mesma época, os primeiros festivais de Teatro Religioso. A idéia de unir grupos em um mesmo evento para que pudessem se apresentar e, principalmente, compartilhar suas experiências, foi fundamental para o desenvolvimento e atual estágio do teatro cristão em nosso país, pois sendo um festival existiam premiações para diferentes categorias: ator, texto, direção, etc., o que fez com que os grupos investissem na sua formação, a fim de obterem melhores resultados nestes festivais, o que, consequentemente, contribui para um salto de qualidade artística nos espetáculo produzidos.

Porém, se a estrada começava se abrir para os artistas de teatro sacro, que começavam a estudar e a se preocupar não apenas com mensagem, mas também com a estética em seus trabalhos, um grande empecilho surge: “esses grupos não estão servindo a Deus, mas alimentando suas próprias vaidades”. Tal pensamento, ainda hoje muito difundido, ocorreu devido às primeiras tentativas dos artistas cristãos de extrapolarem os muros da igreja. Era recorrente a discriminação que a própria igreja fazia com seus grupos. Dessa maneira, muitos voltaram seus esforços apenas para suas assembléias, não buscando novos caminhos, pois estavam influenciados de que fazer teatro e servir a Deus eram práticas incompatíveis.

Apesar destes contratempos, os festivais se multiplicavam e cresciam em organização e desenvolvimento artístico e espiritual. Desta maneira, as grandes instituições de caráter religioso perceberam que ali estava presente um grande potencial de evangelização e passaram a apoiar, em diferentes proporções, tais iniciativas. Vale destacar o CRISTOARTE, um dos pioneiros na organização de festivais, que já contou inclusive com o apoio formal da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Não quero me aprofundar no passado, já que o tema deste debate é sobre “as novas perspectivas para o teatro religioso no Brasil”, mas é de extrema importância este breve panorama histórico a fim de que possamos melhor compreender o futuro.

Vivemos atualmente uma situação de decisão para o teatro cristão. Devemos decidir que rumos iremos tomar, pois se os festivais se multiplicaram e temos hoje centenas de grupos atuando de maneira regular, consistente e efetiva, nossa prática ainda não saiu dos muros da igreja. Continuamos a pescar dentro do aquário. Fazemos teatro cristão para os cristãos. O universo teatral não tem conhecimento do nosso trabalho. Para o teatro brasileiro, o teatro sacro brasileiro não existe, apesar do número de grupos, dos festivais e mostras e de congressos como esse. Assim, o grande embate do teatro cristão hoje é: devemos nos profissionalizar ou não? Mas essa questão não remonta àquela de outrora (técnica ou unção?), a consciência de que devemos ser profissionais, estudando a matéria teatral, já é ponto pacífico para grande parte dos grupos. A pergunta que agora emerge é se devemos nos inserir no mercado teatral ou se devemos nos manter nas igrejas e eventos próprios da religiosidade.

Alguns grupos já iniciaram este movimento de inserção no mercado teatral, ainda que de forma tímida ( e para alguns grupos, não planejada), destacando-se: Chokmah, El shamah, Ong Ecoa, Cenáculo, Paz e Bem, Vivarte, entre outros.

Porém, apesar das constantes evoluções artísticas observadas nos últimos anos, a inserção de que estamos falando é prejudicada por um grave problema do teatro cristão: a dramaturgia. É preciso que desenvolvamos melhor nossos textos, que ainda carecem de aprofundamento teórico e variedade temática. Trabalhamos duas grandes vertentes em nossos textos: a biografia e a luta do bem contra o mal. Desta maneira, não temas a “aprovação” do meio teatral para ali nos inserirmos. Os espetáculos biográficos até conseguem certa entrada, mas os grupos permanecem estigmatizados e, logo, são descartados. Em minha opinião, os aspectos teológicos e dogmáticos em que baseamos nossa fé devem estar presentes nos espetáculos de maneira subliminar, adornando questões mais urgentes de nossa sociedade. Creio ser este o caminho para estarmos inseridos no universo teatral e, dali, criarmos mais possibilidades ao objetivo de evangelizar, pois se “de cara” já mostramos nosso objetivo, “de cara’ já somos descartados. Como disse Gerd Bornheim, em seu livro Teatro: A Cena Dividida, “ não se trata de teatralizar a religiosidade, mas usá-la como forma um tema possível ao teatro. Daí, surge uma nova perspectiva: não devemos fazer teatro cristão, devemos fazer teatro, usando nossa fé como leit motiv, como a motivação para nossa prática.

Situação parecida com a que aqui está sendo colocada já foi vivida no século passado com o teatro infantil, considerado por muitos, naquela época, como inferior ao teatro adulto. Os artistas que pesquisavam e desenvolviam o teatro infantil não eram respeitados pela comunidade teatral, que os considerava menores. Esta situação começou a ser revista com a criação do Tablado, por Maria Clara Machado, que produziu espetáculos que superavam artística e culturalmente espetáculos adultos. Este foi o primeiro passo, porém a consolidação plena do teatro infanto-juvenil no Brasil se deu com a criação do CBTIJ – Centro Brasileiro de teatro para infância e juventude – organização não governamental, sem fins lucrativos, com grupos associados, que defende, organiza e cria políticas e procedimentos para o desenvolvimento e respeito do teatro infantil em nosso país. A criação do CBTIJ possibilitou, mais tarde, a criação do CEPETIN – Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantojuvenil, onde criadas, com a ajuda do CBTIJ, as condições necessárias ao pleno desenvolvimento do teatro infantil, tornou-se possível um centro para pesquisas estéticas em relação a este teatro.

Talvez, nós, realizadores de teatro, que utilizamos nossa fé e nossa religião como forma primordial para nosso trabalho, devêssemos nos espelhar no exemplo do teatro infantil, outrora discriminado como nós somos hoje, e criarmos uma associação de grupos de teatro cristão, para que juntos pudéssemos pensar maneiras práticas para o desenvolvimento cultural e humano da arte cristã contemporânea. CBTeC – Centro Brasileiro de Teatro Cristão? AGTeC – Associação de Grupos de Teatro Cristão? Decidamos!
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Vinicius Baião
cenaculociateatral@gmail.com
Diretor da Cenáculo Cia Teatral